Eu decidi que tô namorando o doutor Greg House, aquele com cara de
“adoro sexo mas sou arrogante demais pra fazê-lo” que passa todo dia as
oito da noite no canal 43. Menos as sextas. E sábados. E domingos. Como
todo péssimo namorado, ele tem mais o que fazer da vida nesses dias.
Já que a vida inteira namorei rapazes que não me namoravam e fui
namorada de rapazes que jamais namorei, resolvi namorar o House e fim
de papo. Comprei um estoque de Vicodim e um apartamento em andar baixo.
Tudo pensando nele.
O House pode tudo. Ele pode me dizer que meu cabelo era
infinitamente melhor mais curto e mais claro. Ele pode me dizer que eu
fico infinitamente mais bonita com uns cinco quilos a mais. Ele pode
reclamar que eu cortei a malhação por falta de grana e paciência. Ele
pode reclamar da queda hormonal e da minha mania de viver caindo. Ele
pode rir da minha vontade de escrever novela ou qualquer outra coisa
popular que me encha de dinheiro para eu poder escrever livros quieta
ouvindo Nina Simone, da minha mania de cantar Maroon 5 e do fato de eu
escrever tudo em primeira pessoa porque, de verdade, acho um saco
qualquer outra coisa do planeta que não passe aqui por dentro. E o
House super passa, em meus sonhos.
Quando vai dando sete e meia da noite (ahhh, a falta do que fazer,
já tem uma semana que não aparece um bom freela ou um bom sei lá o quê)
tomo meu banho. Passo meus cremes. Coloco uma roupinha pra ele. Me
tranco no quarto, no escuro. Vou passar os próximos sessenta minutos
vendo vômitos, sangue, paradas cardíacas, berebas purulentas e a famosa
“lombar punction”. Mas meu coração não entende nada como desgraça, a
não ser a óbvia desgraça do amor.
Todos os dias eu acho que vou morrer. E todos os dias ele descobre
mil coisas pra não deixar. Porque quase nunca se morre nas mãos dele. E
todos os dias ele me magoa terrivelmente com sua amargura e
inteligência. E eu deixo porque não tem nada mais sexy do que gente que
te odeia. Namorar quem tá cagando pra você, então, é o auge do sexy.
Por isso eu namoro o House.
Nós nunca vamos casar, ele nunca vai conhecer meus pais e eu sei
que divido o seu amor com as garotas pagas. Não tem ilusão, não tem
meiguices, não tem roupinha rosa com babados. É preto no branco. É
sofrimento puro. É o pior namoro do mundo. Mas como diria minha mãe
“quando essa menina decide uma coisa...”.